Em Choraquelogobebes a Boa Fé é uma espécie de cama onde se deitam as consciências doentes, uma espécie de leito de malandrices moribundas vestidas de freiras boazinhas com as mãozinhas postas a rezar terços e a pedir perdão pela facada dada anteriormente ou pelo atropelo ou pela simples fuga ao fisco.
A Boa Fé é uma verruga encravada no queixo da maldade, ao lado da falta de respeito e logo por cima do desleixo. È uma mal formação do carácter, que devia ser a pele interior de todos nós.
A Boa Fé tem um cheiro ácido a consciência em decomposição apesar dos ambientadores espalhados debaixo dos panos e das pernas, sovacos e outras partes dadas a cheiros desagradáveis. Não consegue disfarçar o corpo morto da injustiça.
A Boa Fé esconde-se nas tocas como um bicho rastejante à espera de oportunidade para aparecer explicativa de acto punível, senão pela lei, pela consciência. A Boa Fé é a implosão da consciência. È uma espécie de paliativo para a falta de carácter.
Por exemplo, um indivíduo que mata outro na estrada porque não travou não pode alegar Boa Fé dizendo que só esteve a poupar os discos dos travões, um médico que deixa morrer um doente não pode dizer que agiu de Boa Fé porque poupou sangue na transfusão. Um cidadão que não declara os seus impostos não pode dizer que não o fez por Boa Fé. Todos temos que declarar. Todos temos que pagar.
Ninguém pode alegar Boa Fé porque não foi notificado dos seus crimes. Um crime é um crime e a Boa Fé não é desculpa. A ignorância não tem desculpa. Só em Choraquelogobebes que é uma terra de Boa Fé.