julho 07, 2005

Saudades do Ti

João Sem Medo começou a trabalhar cedo porque o calor aperta e o campo seco pela seca mata a vontade de tardar. Por volta das nove já o corpo pede sombra e a boca água fresca da cantara. Os campos estão castanhos, ressequidos, assustados de sol.

João Sem Medo está encostado a uma oliveira torta de centenários, passa a mão pela testa ao jeito de tique nervoso para limpar a suor que deveria refrescar a pele em situação de calor normal. Está um calor medonho, tocado a vento, marcado a acendalhas.

Neste estado de torpor passam pela cabeça do nosso personagem as razões de aperto que marcham em direcção ao coração para além da seca e das coisas tristes que o verão derrete nos campos.

O Ti mandou um pombo-correio com uma mensagem na pata a dizer “Tenho saudades.”. Uma mensagem amarrada com uma fita azul com a palavra Ti escrita a lágrimas.

João Sem Medo abriu a fita com mil cuidados para não magoar o bicho ofegante ou para adiar o resultado da missiva nos seus olhos. Saudade. A palavra ecoou dentro de si como um cristal com muitas arestas cortantes. Também ele estava com muitas. Apetecia pegar na carroça ou num bando de pombos e a galopar ou a voar ir buscar o Ti para junto, muito junto de si.

Já voava o pombo em direcção ao descanso merecido, ainda João Sem Medo abria lentamente a carta e lia a declaração. A saudade na cabeça de João Sem Medo surgia como uma catástrofe sem limites uma espécie de bomba ‘s’ com um ‘s’ muito grande e explosivo. A palavra saudade ganhara de repente umas sete ou dezassete cabeças de serpente que deitavam labaredas das bocas malvadas. Era como se cada letra fosse um animal feroz e a palavra uma rajada de metralha certeira. Ratatatataaaaa. Cada bala, cada letra no centro do coração, mesmo onde a pontuação é máxima de quem acerta no alvo.

Ao pai João Sem Medo dói a saudade ampliada da saudade que é a sua, multiplicada pela do filho na proporção muito directa de um grande amor. Nisto, porque a dor pode ser uma emoção traiçoeira pensou que aquela saudade podia ser uma flor melosa de quem só quer um mimo e precisa de um beijo de boa noite, ou um aconchegar de lençol, uma festa leve na face a que está habituado. Podia ser uma poesia pequenina do Ti a dizer – “Gosto muito de vocês” escrita com pó de estrelas em vez de lágrimas.

Publicado por joão sem medo em julho 7, 2005 07:00 PM
Comentários