novembro 24, 2006

Regresso em Festa

João Sem Medo voltava da horta, molhado, desconsolado, com as botas enlameadas até ao cérebro. Com água por dentro e por fora dos olhos. Com um ar de "deixem-me passar que eu hoje não estou para festas". Encostou o carro de mão junto ao celeiro, pendurou o oleado cor de enlameado á porta, descalçou as botifarras e entrou.

Junto á porta estava a cadela aos saltos sem perceber o instado de João Sem Medo. O filho pequenote agarrado a uma bolacha a tentar equilibrar-se de braços no ar em direcção ao pai gigante. Se calhar a pedir colo!? E ao fundo logo ali um som bom de violino.

O filho grande de João Sem Medo estava a estudar umas peças novas com um entusiasmo velho de divertimento genuíno e uma postura de artista grande. A mão certa no arco, as costas muito direitas de árvore, os dedos nos trastes imaginários. Zás para cá e para lá com o arco, saía um som delicioso do instrumento, doce amargo de queijo de cabra com mel, temperado de ervilhas salteadas. Um som enorme de felicidade brotava do instrumento como um saco de água quente para alma. Um chá de mel e aguardente para a constipação.

João Sem Medo sentou-se no sofá. Silencioso com os olhos muito abertos para ouvir melhor sem incomodar. Só para ficar feliz.

Publicado por joão sem medo em 10:00 AM | Comentários (2903)