O dia tinha começado silencioso em Choraquelogobebes. O Dia começara suspenso de uma revelação que se sentia ao passo de um batimento de coração. Uma brisa suave empurrava as ramagens de árvore contra o telhado dedilhando um compasso suave que dizia na linguagem das árvores – está grávida. Ou seriam os pássaros a adivinhar a Primavera!?
Basta um instante. Apenas uma fracção de uma fracção de segundo. Basta apenas um bocadinho de nada de tempo a olhar bem fundo nos olhos que se sente. Há coisas que são absolutamente evidentes. De uma clareza brilhante. Assim começou João Sem Medo este dia. Ou outro que não interessa a data quando do que se fala é do que se sente. Os sentimentos são tão preciosos que o tempo não conta, nem o relógio, nem coisa nenhuma que por ser nada é apenas um apoio literário para falar da importância do que conta. As sensações.
João Sem Medo começou dia assim com estes rodeios, pela falta de jeito que certas circunstâncias ditam. Ditam de ditadura. De ordens para obedecer a qualquer custo. De regras que não são normas, mas são inevitáveis. As da natureza.
Podia ontem ter assumido esta sensação de estar mais leve e mais pesado, de estar mais inconsciente e atordoado e mais consciente e responsavelmente comprometido. Podia ontem ter feito este discurso de sensações e natureza. Ainda mais porque ontem falou-se de mulher. Da Mulher. Seria fácil esta mistura de sensações, natureza e género. Seria muito fácil.
O dia nasceu claro em Choraquelogobebes e o frio dissipou-se durante duas ou três horas para comemorar a primavera que espreita, ou o dia da mulher que chega envolto em sensibilidades e promessas.
Hoje os maridos em Choraquelogobebes vão andar de mansinho, a mandar pombinhos correios com mensagens gloriosas nas patinhas e a deixar passar as mulheres nos carreiros e abrir as portas e deixar passar e a não mandar piropos ordinários, só poemas e frases a rimar. Minha flor meu amor, coração e emoção, mar e amar, saudade e bondade.
Hoje vão levantar a mesa antes de se levantarem eles em direcção ao cadeirão junto às lareiras. Alguns até vão lavar a loiça. Hoje vão buscar lenha e desculpar o atraso na sopa. Vão descalçar os botins e levá-los para o respectivo sítio. Hoje as mulheres de Choraquelogobebes não precisam de ir para a horta e de carregar com feixes de lenha e de caruma e de nabos e por ai fora em cargas mais carregadas do que as costas permitem por não estarem programadas para tais carregos. Podem fazê-lo amanhã sem problemas com permissão de quem pode e hoje podem ficar mais tempo a ajudarem os filhos a fazerem os deveres da escola.
Hoje é dia da mulher e vão haver cerimónias e celebrações, vão ser inauguradas duas ou três exposições sobre a beleza feminina, promovidos livros sobre o eterno feminino, sobre a importância da mulher na comunidade, conferências sobre receitas de culinária para mulheres ocupadas, truques para educar filhos sozinhas, algumas vão ser condecoradas com faixas e flores e até vão ter almoço reforçado de louvores. Hoje, só hoje, vai ser um dia a sério, daqueles em que nenhum homem faz nada para magoar a fragilidade. Nem com uma flor.
Leva o retrato e as cartas também. Leva o cordão que me ofereceste e as roupas do enxoval. Leva. Leva tudo senão em mando-te pelo correio. Traidor. Não deixes, nem o cheiro. Leva. Leva tudo e a ti também.
Dito isto a Ritinha fez um jeito com a cara fechada e apontou a porta da casa imaginária com ar ameaçador. O Miguel como marido de brincar bem comportado, obedeceu. Assim acabaram as brincadeiras de fim de tarde das crianças. Prontas para o lanche subiram as escadas até à cozinha onde já cheirava a queijo de cabra com mel e sumo de laranja.
Afinal a infância ainda é o que era. Mesmo em mundos imaginados.