João Sem Medo está à soleira da porta, olha o palha seca vergada ao sol. Levanta um pouco a cabeça e inspira fundo um ar quente que não escorrega pela garganta e teima em colar-se à pele em suor. Assim fica, durante uns segundos, a sentir o calor a escorrer pelos montes, pelo ardor nos olhos, alto a cima e a baixo, vales sem parar. O fogo.
O verão instalou-se em Choraquelogobebes bruto e traiçoeiro, numa impiedade insuportável de incêndios e mais incêndios. Nesta impaciência corrida de labaredas sobra um sentimento de perdição. O abandono.
João Sem Medo tem a mania, que é uma espécie de defesa contra o incómodo, de mudar o rumo das percepções quando estas atingem o limite do aceitável. È uma espécie de negação pela distracção e não pela ignorância, que liberta o nosso João da prisão da causa-consequência-directa que afecta os espíritos atentos. A razão.
Nesta fuga de metáfora e figuras de estilo, João Sem Medo retêm imagens de praias e calores distantes, mornos, com corpos sensuais a rebolarem enleados na espuma das ondas ou a beber um copo de vinho branco frio à sombra, amantes tropicais em juras impossíveis como se o calor fosse sensual e o amor possível. A mentira.
Falou-se aqui da Fada-dos-dentes como um ser mágico e especial, um bicho maravilhoso que acompanhou a família de João Sem Medo, desde que o é. A Fada-dos-dentes entrou pela meiguice, pelos ron-rons disponíveis pelo pêlo macio, pelo coração a dentro.
Agora regressou com a mesma determinação de conquista pela simpatia. A gata Pantufa transformou-se em cadela Pituxa. Uma e a outra andaram na mesma escola de fadas e como tal, entraram subtis por baixo da porta sem autorização.
A Pituxa é uma enviada especial da terra das fadas para dourar os acontecimentos mais tenebrosos do nosso João, seja seca na horta, imbecilidade de broncomans, ascensão de Saltapocinhas, tudo o que é mau transforma-se em nada perante o olhar meigo da Pituxa.
Na sua simplicidade animal, na sua complexidade de Fada, a Pituxa preocupa-se com todos e ninguém escapa a uma sessão de festas, lambidelas e mimos. Sabe sempre quem precisa de atenção, deste modo é fácil adivinhar o que lhe vai na cabeça peluda ao fim da tarde– “Ele está a chegar cansado da horta, deixa-me ir buscar a bola para ele atirar para longe como quem atira as preocupações para fora.” Vai, corre e repete, vai corre e volta a pedir nova volta. De tanto jogo fica cansada, ou finge, e vai aninhar-se num colo disponível depois de cumpridos os primeiros cumprimentos.
Pode parecer ao leitor estranha esta coincidência animal, esta força de vozes internas, mas o destino tem destas coisas e as repetições muitas vezes não são casuais. João acha que tudo tem a ver com amor merecido.
Andava o tempo teimoso de chuva num inverno acelerado de águas quando se finou a Fada dos Dentes. Depois da mágoa que tal perda representou para João Sem Medo e para todos os corações que partilhavam as festas, as sonecas no sofá e as magias da gata Pantufa, parecia que nada mais fantástico aconteceria, que mais nenhum bicho seria recebido de braços e de dobra do lençol abertos.
A morte fora anunciada antes com veredicto temporal certo e se isso permitiu que os corações ficassem mais compassados com o destino não os tornou menos frágeis, não atenuou o abalo inevitável da despedida.
Durante um tempo parecia que os miados das quatro e quarenta e cinco da manhã continuavam, o raspar das pedras da higiene matinal eram os mesmos, que as unhas continuavam a aparecer vincadas nos sofás e que o colo continuava preenchido pelo “monte de pelos” que era a Pantufa enrolada sobre si mesma.
Esse tempo foi o suficiente para perceber que a vida se enche de pequenas coisas e que as coisas pequenas passam a grandes por serem certeiras no nosso coração.
Os Choraquelogobebences estão atónitos, aparvalhados, enleados entre a derrota-vitória do Campeonato de Chinquilho, a fuga do primeiro-ministro para longe, a ascensão do Saltapocinhas a primeiro-ministro, a fuga para perto do líder mais ou menos da oposição, do novo governo, do calor, das férias descansadas que nunca mais chegam, do reembolso que tarda.
São muitos acontecimentos para os corações franzinos dos chorincas. São setas maldosas para as alergias nervosas que reforçam a pingadeira e matam qualquer esforço de contestação ou sequer agitação.
Há coisas que não se percebem, e na consequência inconsequente da incompreensão, há um ir e vir de nomes que parece uma fuga de animais acossados por predador. Uns querem ficar e têm que ir, outros vão para não ficarem, outros ainda ameaçam ficam entremeados entre ser ou não ser candidato a ir.
Perante este movimento anormal de intenções, os Choraquelogobebences ficam enterrados nos sofás e puxam os lencinhos a todos os minutos para se assoarem pingões. Alguns agitam encalorados os paninhos ranhosos para afastarem o calor e ficarem à espera do momento certo para irem. De férias.
João Sem Medo já se sabia, tem dificuldade em conviver com as datas, boas ou más, por estarem marcadas no calendário da memória com uma cor diferente, são mais difíceis de digerir e de passar simplesmente como se passa por um dia comum. Um dia daqueles que passam sem passar e só se acoitam em significado quando se nasce, morre ou ama. E nesses dias o comum é passar a respirar por qualquer lado e não se lembrar que água, pedra ou caminho se calcorreou.
Hoje não é um dia desses para João, é dos outros, dos que contam marcados. Dos que são só uma vez por ano. Aniversário. Hoje é a oportunidade de todos os que contam darem à costa com um ar de descoberta de uma grande felicidade, de virem cobertos de mantas douradas e conchas do mar e de lembranças recordadas doces. Hoje qualquer navio que aporte vai estar engalanado e marear águas calmas e tépidas, mesmo que à casa de João só chegue os murmúrios de uma ribeira ao fundo da horta. Na simplicidade de águas curtas entre pedras vão surgir grandes mares e marés que descobrem os fundos da alma e do coração. Um espécie de conquista anunciada da fragilidade da infância.
Hoje a palavra parabéns vai ser pintada, dita, escrita, cantada e tocada se o filho de João conseguir afinar o violino, senão toca-se na mesma porque o coração só ouve afinações amorosas.
Choraquelogobebes é mesquinha, pequenina, chorosa e lamuriente. Os Choraquelogobebences foram treinados por uma espécie de religião da mediocridade, foram educados para andarem sempre culpados pelo que fazem, pelo que não fazem e pelo que gostariam de fazer. Assim se construiu a mentalidade amarga de quem arranja razões no destino para fazer pouco, para fazer menos e pior.
Choraquelogobebes adora arranjar culpas choronas para a mágoa, de fugir dos sentimentos, de escapulir-se à "pega de frente", de pegar os cornos dos acontecimentos com os dentes cerrados, de morder quem magoa ou gritar de alegria ou dor genuína.
Agora, depois deste campeonato de chinquilho, nada vai ser igual, o povo cresceu. Estes jogos foram uma espécie de picadela certeira no que tem que ser. Depois de assumir com os lencinhos à janela e os braçados de cebola nos carros de mão e carroças, os Choraquelogobebences estão comprometidos com o seu país, deixaram de ter vergonha do hálito a cebola e da lágrima chorona. Agora aprenderam a saltar de alegria quando existem razões para tal e a chorar verdadeiramente de alegria pelo que conseguiram. Quando toca o hino sente-se um frémito, quando o belho acerta naz malha uma explosão de alegria, quando o vizinho nos acena, gritamos vitória.
O povo de Choraquelogobebes aprendeu a gostar de si, do seu país, vai ser mais confiante e exigente. Essa vai ser a grande diferença - o povo vai exigir.
João Sem Medo sente estes sentimentos com receio de estar a sonhar com um sonho lindo, mas é assim que imagina o futuro.
João Sem Medo senta-se na soleira da porta e olha para um monte de terra seca onde acenam malvas, inquietas e selvagens. João olha e volta a olhar com os mesmos olhos, mas diferentes porque não são olhos de ver cores e folhas e flores, mas antes olhos que procuram razões para o resultado do jogo de ontem entre Choraquelogobebes e Mousaka. Nada melhor que as flores para afastar as mágoas de um desaire, que embora atenuado pelas glórias recentes, deixa um gosto azedo de “poderia-ter-sido-tudo-diferente”.
Nesta originalidade de olhar para as flores e tentar encontrar razões, se as há, para a vitória da equipa de Mousaka, fica-se o nosso João a pensar conformado que a beleza, o espectáculo de cores, de qualquer flor amarrada num vaso, de uma planta presa e linda, viçosa e cheia de gotas de orvalho milimétricas colocadas pela mão certa de um jardineiro habilidoso, contrastam com a força retorcida das malvas, das cores empoeiradas, dos caules ásperos, retorcidos e tisnados pelo sol inclemente.
As malvas são flores que marcam em cima de qualquer seca, resistentes, que teimam em crescer com uma ordem que parece força. Assim foi a selecção de Mousaka, uma equipa de malvas ásperas que cortaram a beleza espectacular de flores rubras, lindas, de formas dançarinas, que iam e vinham, iam e vinham, mas acabaram por ficar onde não queriam, tolhidas pelo seu próprio espectáculo. Vencidas à força das malvas.