Choraquelogobebes ainda não tinha recuperado das alegrias das vitórias no campeonato chinquilho Chora2004 e já outras "alegrias" assaltavam a pátria. O Primeiro (ministro) estava de saída para outras paragens, que por serem distantes do nosso olhar são para aqui limitadas na caracterização.
O acontecimento que até poderia ser importante passou para terceiro ou quarto ou quinto grau de relevância. O mistério principal residia na assunção monárquica de Saltapocinhas, antigo dançarino profissional de bailes de pinhata ao lugar de todo-poderoso.
As opiniões repartiam-se em Choraquelogobebes, não cinquenta para cada lado, mas para cada lado, um e o outro, aqueles que achavam no dançarino falta de competência para o cargo e uma manifesta ilegalidade, pois não tinha sido eleito por eles, nem por outros e aqueles que seduzidos pelo jeito bamboleante, sambante-tanguista do artista vincavam a lábia, a força de verbo, o charme indiscreto e o aprumo no vestir.
Assim se partia Choraquelogobebes entre os crentes da força do carácter e do corte de fatos e os descrentes na falta de acerto das acções e na superficialidade dolorosa do artista.
João Sem Medo, tem dificuldade em achar um achamento acertado, falta-lhe conhecimento das leis, dos cumprimentos e dos mandatos, mas a seu ver, que é o mesmo que sentir, esquece-se do dançarino e da sua progressão fora dos palcos e das pistas de dança e concentra-se na vontade do Primeiro Ministro convidado. Este, fosse generoso e convidasse mais alguns membros do seu governo para tão altas e responsáveis incumbências fora de Choraquelogobebes. Assim a fuga seria mais solene e a solidão menos só, cá na terra poderia aparecer outra gente de cara menos fechada e de intenções mais frescas.
Hoje João Sem Medo está cansado, prostrado de alegria genuína. Ontem jogou-se contra a equipa Bifedavazia. Foi uma partida longa muito longa, uma eternidade de lances para cá e para lá, de malhas a voar e belhos a cair. Tudo se discutiu ao minuto, ao segundo, de ansiedade que foi a primeira. O resultado é indizível, dois a dois, quatro a quatro, um a zero, num tempo, no segundo, no outro e por ai fora num tu-cá-tu-lá de gigantes.
Choraquelogobebes começou a perder, começou por baixo, mas em cima. Bifedavazia começou a acertar, mas temerosa recuou. O assalto de Choraquelogobebes não tardou e foi um domínio de heróis, de seres mágicos. O estádio transformou-se pela força da vontade num templo traiçoeiro onde só metade dos devotos iria ver um milagre. Não há razão que explique toda a energia de vozes em uníssono, do prazer do medo de não ganhar, do prazer concretizado de ganhar.
Neste choque físico e de afectos que ataca quem aplaude, quem vive por dentro, quem não lança a malha com as mãos, mas com os olhos e o coração e a pele, fica esgotado, enlevado, rouco de gritar pela festa, quebrado de pular em direcção ao céu – onde acontecem as coisas mágicas.
O Chinquilho pode não ser a mais alta expressão de inteligência do ser humano, mas é onde a estética se reúne com a moral cozinhada num compêndio de afectos. Onde a razão perde o sentido em função da força, do querer, da determinação. Os gestos tem que ser certos, os jogadores deuses e os deuses poderosos.
O chinquilho é só para pessoas simples, é para todos os humildes, os que não têm medo de sofrer por facto imediato - acertar ou não acertar. O chinquilho une as pessoas não porque seja compreensível, mas porque é sensível. Só não adere quem tem medo dos afectos, de ganhar e gritar bem alto, de perder e chorar sem razão.
No chinquilho as fronteiras entre acertar e falhar são tão finas, tão incertas que qualquer certeza vale um grito, um salto, um "somos os maiores" que mais nada dá, nem livro, nem piano, nem sinfonia, escultura, teatro, poesia. Nada tem a magia de um jogo de chinquilho. Está lá tudo o que é belo, está lá tudo o que interessa condensado num instante de horas, de começar e nunca mais acabar. Nada consegue juntar tantos quereres, unir todos. Até à vitória.
Sabem os leitores que todas as coisas na vidas, as mais simples e comuns e as mais espertas e complexas encerram em si muitas possibilidades de resultado, de consequência. Tudo e mais tudo na vida é assim, tudo se mistura e reparte em bom e mau, em para a frente e para trás, em mais, melhor, em menos, pior.
Este é o signo dos acontecimentos, o lei que dita o momento, o passar do tempo e o que fazemos, pensamos e sentimos desse tempo – as atitudes.
O Campeonato de Chinquilho Chora2004 recuperou para Choraquelogobebes o sentido da Cebola e do Lencinho branco presos em tudo o que é janela de carroça, casa, ou simples palheiro. São os símbolos da nação que os Choraquelogobebences erguem e mostram com enlevo.
Esta pode ser uma oportunidade para criar um sentido de partilha dos valores da pátria, de diferenciação pela consciência que somos diferentes enquanto nos identificar-mos por símbolos comuns ou um simples embrutecimento de quem-não-pensa-mais-nada-e-limita-se-a-agitar-lencinhos, uma resposta simplista para todos os problemas ao jeito de sempre-fomos-assim-e-assim-é-que-está-bem. Uma cebola à janela afasta o mau-olhado. Seria uma pena que assim fosse, porque o tempo não retorna e as atitudes têm que ser tomadas num momento – agora.
Não pareciam os mesmos. Corriam, apontavam, lançavam as malhas com precisão de "mão milimétrica". Acertavam. Houve querer nos jogadores de Choraquelogobebes, determinação, força.
Não pareciam os mesmos atordoados, esqueléticos temerosos de usar da vontade, que tinham perdido contra os Mousakas. A verdade é que não eram os mesmos. Os anões tornam-se gigantes com o querer e desta vez eles quiseram.
João Sem Medo sabe e os Choraquelogobebebences sabem que a mediocridade generalizada, o mau serviço, a falta de respeito vai continuar. Os Choraquelogobebences têm poucas razões para festejar, para terem orgulho.
Seriam mesmo tristemente enganados, os, que achassem que um jogo (o campeonato de chinquilho é apenas um jogo, convém repetir para que os menos avisados não confundam esta alegria de vitória com remodelação de governo ou fim de impostos dolorosos) muda tudo e ficamos muito melhor. Não muda nada, fica tudo na mesma, mas temos razões para pular, gritar e enaltecer a pátria durante duas ou três horas. Também é preciso.
João Sem Medo foi para a horta procurar o Nabo Rogeriano para ajudar a Selecção de Chinquilho de Matatouros. Andam nervosos os rapazes da vizinhança, desatando a língua em temores e em culpas antecipadas a tudo e a todos para justificar o fracasso que se deseja.
João Sem Medo é um desportista e vendo os Matourenses tão nervosos, decidiu facilitar ajuda especializada da sua horta.
Ajuda em Dicionário de nomes, lugares e Conceitos.
Acertooooouuuuuuuuuuuuu. Graaannnnnde acerto de Choarquelogobebes. Acertooooooooooooooooooouuuuuuuuuuuuuu. Ouvia-se na rádio por toda a nação. Os Choraquelogobebences saltaram emocionados, encalorados, aliviados por segundos, por fracções de um tempo em que o coração esteve mais cheio de orgulho, de certezas certas.
João Sem Medo também saltou, e durante alguns instantes, enquanto os pés levantados do solo pareciam sustentar-se no ar de uma ilusão, acreditou que tudo era diferente, diferente para melhor, para "como devia ser".
Aquele belho que acerta na malha, repetido vezes sem conta transformou-se numa estátua, uma obra prima, uma elegia momentânea às “coisas boas que são possíveis em Choraquelogobebes”.
Anda Choraquelogobebes atarracada de sentimentos positivos, tolhida de auto-estima, acabrunhada pela derrota da Selecção de Chinquilho.
Anda Choraquelogobebes chorona de sonho falido, de “pensar que se é o maior e afinal só se é o que se é”, arreliada com uns e com os outros, culpando tudo, todos e mais alguém, quando no meio de tanta lamúria e desistência pensa o nosso João na relativa relevância do fenómeno e na distracção que representa em relação ao fundamental.
Claro que os Choraquelogobebences têm razão para estarem tristes, afinal não é todos os dias que caímos na realidade sem colchão ou amparo substancial, mas será que a razão fundamental de tanta tristeza será apenas uma derrota num jogo de Chinquilho!? Será que tanta depressão e fungadé-la se deve apenas ao dinheirinho gasto com proveito duvidoso em tanto estádio de chinquilho!? Não.
No fundo, mais fundo de cada Choraquelogobebence existem outras razões. Tão certas que são difíceis de assumir, de conviver, de chamar para a sala de estar e convidar para scones. Estas razões, não têm a ver com a história, não têm a ver com o passado remoto mas apenas com o presente.
A auto-estima dos Choraquelogobebences está em baixo porque são mal tratados quando vão a um hospital, porque se sentem inseguros nas ruas, porque se sentem tratados como cidadãos de terceira categoria quando vão a qualquer repartição, porque são desrespeitados por quem tem o poder, porque são enganados.
Claro que os nossos chorincas, submissos têm muita dificuldade em chamar os lobos pelos nomes ou olhar as doninhas nos olhos e assumir as verdades estiletes. Assim ficam sossegados porque todos os males têm uma razão verdadeira aos seus olhos (embora não nos corações) – A Selecção de Chinquilho.
Os jogadores de Choraquelogobebes estavam anestesiados, dormentes, apanhados de moleza e de falta de pontaria. Nada de grandeza de descobridores, de força telúrica de antepassados, de marchar contra os canhões, de simples coragem e determinação.
Choraquelogobebes estava curvada e mole, atarantada com a rapidez de golpe dos Mousaquenses. Bastaram seis (6) minutos para a catástrofe começar. Onde se esperava um banho de pontaria de Choraquelogobebes ficou-se pela certeira pontaria da mão de Narigopolidis. Num espaço de metros, num instante único (como todos os instantes que alteram para sempre a história dos homens ou de cada um de nós) a malha já acertara em cheio no belho de Choraquelogobebes. Começa o princípio do fim. O desgosto e a tristeza começam a baixar, como um tecto de nevoeiro negro de outras lembranças. A auto-estima dos Choraquelogobebences, elevada durante um ou dois dias, esvaíu-se numa hemorragia fulminante.
João Sem Medo, para descarregar tanta frustração foi à janela e olhou longamente todos aqueles lenços pendurados e baraços de cebolas.
Não restam dúvidas que a auto-estima, o querer, a determinação não têm nada a ver com têxteis ou vegetais pendurados na janela.
João Sem Medo está suspenso e silêncioso. Primeiro de pensamentos e depois de afectos. Ficou numa espécie de torpor magnífico apoiado entre a força do hino e a expectativa do resultado.
Nas ruas de Choraquelogobebes há um silêncio animado e uma força que brota de todos os corações. A ansiedade é muita, muitíssima, o querer ainda mais. Todos esperam o voo da primeira malha e o resultado que se adivinhava no belho.
Choraquelogobebes vai ganhar. A vitória tem que ser nossa afirma o povo nos comentários de bancada antes do jogo, vamos ganhar, vamos ganhar. Será a recompensa para tanto esforço em lencinhos e braçadas de cebolas na janela - os símbolos da pátria. O povo está determinado e solidário com os jogadores. Todos estão com a Selecção de Chinquilho.
Os lencinhos agitam-se com a brisa ou o bater dos corações nas janelas.
Choraquelogobebes anda eufórica e obnubilada com o magnífico concurso de chinquilho. Depois de ficar claro que os campos de contenda iriam ficar prontos, apenas alguns têm dificuldades de acesso, tudo está preparado para a grande festa, para a grande competição.
Vão haver jogos para todos os gostos e paladares, as barracas de bebidas estão montadas, os couratos na chapa aquecem e o saltam à vista as camisolas coloridas dos concorrentes e dos apoiantes, entre entremeadas, cachorros e cervejola.
Choraquelogobebes está toda engalanada, a cada um dos Choraquelogobebences foi proposto que mostrasse solidariedade com a Selecção - todos deveriam colocar à janela de casa ou presa na carroça ou carro de mão os símbolos da pátria - um lencinho de assoar (limpo, pois então) e um viçoso braçado de cebolas.