Nem correrias, nem choros, nem reclamações. O Treinador Taradinho quebrou a tradição e inesperado, sentou-se abraçado aos filhos e viu a festa acontecer. Estranho? Não! Honesto.
A vitória estava garantida, o prémio chorudo (ou sortudo?) prometido também. Só restava fazer as malas e partir para longe. Em Choraquelogobebes não há mais nada para ganhar e a pequenez da terrinha não se compadece com certas ambições - as do Treinador Taradinho.
João Sem Medo apoia a determinação, mesmo com algum alívio, o carácter do Taradinho faz-lhe bordoeja e apesar da sua competência, magoa a falta de humildade, vê-lo pelas costas é uma espécie de retorno "ao tudo era como dantes" sem glória nem grandeza, mas tranquilo e sem arrufos de fúria.
Joga-se a final. Choraquelogobebes está suspensa. Aguarda. O que aportará? Qual será o resultado? Os jogos de chinquilho são tão dúbios em termos de resultado. Quem sairá vencedor?
A maior curiosidade está em saber se o Treinador Taradinho vai sair a correr no final do jogo numa explosão de alegria justa ou de monco caído a culpar o árbito ou o adversário por ter sido mais certeiro.
Matatouros é o país do lado. Situa-se do lado esquerdo de quem vê o mapa como ele costuma aparecer ou simplesmente ao sabor dos astros fica do lado nascente do sol. João Sem Medo ainda se lembra deste país ser conhecido pela Caramelândia, em tempos de visita obrigatória uma vez por ano para encher a boca de caramelos entranhados nos dentes de leite e ninho de cáries.
Isso era no tempo em que em Choraquelogobebes não havia refrigerantes importados, só Laranjada e Gasosa BB e muito vinho. Nesses tempos Choraquelogobebes era um grande produtor de uva e nenhuma era para comer só para beber. Os tempos das sopas-de-cavalo-cansado.
Hoje Matatouros já não é a Caramelândia, já está na lista dos mais desenvolvidos e apesar dos problemas em dominar línguas - os Matatourenses têm um problema genético no córtex que processa a aprendizagem de línguas estrangeiras - têm também uma grande determinação e neste momento já tomaram conta de Choraquelogobebes. Seja ancinho para a horta; lencinho de assoar o monco; lugar de fruta; banco para assentar ou simplesmente guardar os remedeios lá está escarrapachado - Made in Matatouros ou mais simplesmente Olé, Matatouros.
Já aqui se falou do génio do Treinador Taradinho. Da sua técnica para antecipar as movimentações do adversário, da sua leitura de jogo, da capacidade de avaliação de recursos e de organização das equipas. Nada é mais exigente em termos competitivos e psicológicos que um bom jogo de chinquilho (Ler - Dicionário de Nomes, Conceitos...).
Sabe João Sem Medo das exigências de tal modalidade e da importância do treinador, com sabem os leitores, qualquer coisa, simples ou complexa ganha pela coordenação, pela ousadia de quem decide, pela forma anímica do topo.
Mas, na vida há sempre um mas, nem só de competência se fazem as virtudes, nem só de vitórias se fazem as grandezas dos homens. Pelo contrário, ou assim mesmo, é na derrota que se medem os verdadeiros Senhores, as personalidades. Na derrota vem ao de cima o que cada um tem de mais frágil, de mais verdadeiro e único. No caso do Treinador Taradinho fica uma impressão sofrível de infantilidade que tolhe a sua competência.
O que ouvir quando o trabalho aperta? Quando a sede desperta? Quando a criança dorme? Quando se quer ouvir tranquilamente música e não se pode levantar o som?
Não há necessidade de dúvidas, nem deixar que a cabeça fique hesitante. Há que guardar energia para outras lutas. As certas. A escolha simples da possibilidade de ouvir todos os instrumentos, sem que nenhum faça surdinas temerosas nem "fortes" muito fortes. Só serenatas.
W.A. Mozart - Serenades, Famous - Ed. Teldec
(Nota - Caixa de 5 CDS a preços de amigo. Muito amigo)
Não merece a pena achar que tudo em redor se resume a uma dúzia de imbecilidades como rosas distribuídas gratuitamente. Não merece a pena ficar abatido porque a mediocridade abunda, a traição ou está simplesmente de chuva. Não merece a pena ir para baixo. Desistir. Ficar entre nada e alguma coisa infeliz.
Para começar música. Música. Música. Ums espécie de receita de mel e limão para a tosse. Uma palmada nas costas uma festa. Uma pessoa sente-se maior com música. Bate fundo, ressoa no melhor que há dentro de nós.
J.S. Bach - Suites para Violoncelo - por Rostropovich - (CD Duplo) - EMI Classics
Uma chuva miudinha de arame trespassava o oleado e o céu. Nesta Primavera incerta o tempo estava do contra que é o mesmo que haver figos em Dezembro ou uvas em Maio. Na incerteza dos elementos e perante a teimosia aquática do céu, João Sem Medo limitava-se a andar de um lado para o outro na horta a prender um ou outro galho de videira, a cortar uma folha seca de couve ou a ajeitar uma folha de alface comida por uma rosca.
Andava o nosso João - que por ser de todos é mais livre para não ser de ninguém - nestas levezas, quando ao passar pelos nabos descobriu um que estava fora da terra. Nesta urgência mole de quem não está a fazer mais nada do que o que faz para enganar outros afazeres mais importantes, João ajeitou a cabeça do nabo e puxou em redor a terra para tapar a raiz protuberante.
Calma ai. Respondeu o nabo num tiro-frase certa em direcção ao bem-intencionado João. Porque razão você tem que influenciar a vida dos outros? Nisto entre a surpresa e o susto, o nosso João olhou incrédulo para o Nabo e respondeu. Eu...O nabo continuou. È isso mesmo. Você tem um problema no “eu”!!! Mas...tentava continuar João Sem Medo. Claro, que também tem um problema de auto-estima que o leva a exercer o seu poder sobre os mais fracos. Continuava o nabo numa espécie de dialéctica psicoterapêutica alheio à chuva miudinha e à indiferença dos outros nabos e couves e alfaces e demais hortícolas.
Mal deu por si já o João estava recostado entre dois fardos de palha junto ao celeiro com o Nabo à cabeceira a fazer perguntas com um ar sério ou simplesmente a emitir sons com uma boca falsa. Uhum. Uhum... Uhum. Uhum...