João estava sentado debaixo da nespereira, na parte que finda da horta, onde começa o canavial e a ribeira mais abaixo. Ai estava o nosso personagem em repouso depois de sachar as batatas, as primeiras da época. As “novas” como por aqui se chamam. Lindas e lisas. Firmes e roliças.
Ás batatas novas basta um qualquer acompanhamento no forno para originarem um festival gastronómico. Tem em si a magia das coisas novas e encerram a garantia secreta da colheita ter vingado. Nestas coisas de quem planta, fica sempre a dúvida do resultado, dependente da incerteza dos elementos ou da generosidade da semente. As batatas novas mostram ao mundo que tudo correu como devia. Semente, esforço. Terra, suor. Resultado.
A simplicidade aritmética das coisas novas sem novidade.
Choraquelogobebes é uma terra rural. Dada a hortas e culturas (entenda-se tratamento da horta em tempo certo) e sementeiras. A batata medra viçosa, o milho espiga dourado, as coves verdosas, a abóbora embarra pelos muros dos quintais e a uva é doce.
Choraquelogobebes é uma terra simples, ocupada no seu labor diário de mondas e sementes. Mas como vimos em anteriores narrativas, a esta simplicidade vegetal, Choraquelogobebes junta uma enorme complexidade de entes mágicos e seres de carne, osso e tendões.
O Grilo Valentinho é um dos bichos especiais de Choraquelogobebes. È um bicho peludo e barulhento no seu vozeirão de tempestade, rematando com certeza qualquer tema e transformando em verdade qualquer coisa, mesmo que em si mesma não seja grande coisa ou tenha escrito em grande cartaz - "Sou mentira". O Valentinho tem esse poder mágico de tornar verdade pela força da voz as suas afirmações e a dos amigos. "Você acredita que aquele Senhor seja corrupto? Você já viu como ele é rico e bem de vida? Para que é que ele se deixaria subornar? Como frases deste tipo construiu a sua reputação de Grilo Justiceiro. De Bicho-da-verdade.
Pele. Fogo. Flor. Pélvis. Amor.
Fica entre ti um sabor e ficar. Fica entre ti o amor e o amor.
Desabam em frente dos olhos como farpas as verdades. São mentiras traiçoeiras.
Corre mal o rio para o nada. Seja montanha. Vale ou quintal apertado. O rio triste segue para todo o lado e nenhum.
Este mês é dedicado ao que ele tem de mais valoroso. Nestas homenagens, datas, comemorações de Abril, a Primavera tem um destaque de estação princesa. Lembra-se o nosso João que a Primavera tem uma leveza de tecidos leves, de bebidas leves de músicas especiais. Música para a Primavera. Uma. Duas. Três ou mais opções possíveis acabaram - que é só uma forma de começar - por andar nos ouvidos do nosso personagem.
De todas, a principal. A primavera é em Paris. Paris mesmo. Então faça-se a Primavera com música de Paris.
Um disco diferente com quase quarenta (40) anos, música para ouvir numa esplanada a comer um crepe e uma taça de vinho branco. Ou para simplesmente andar a ouvir enquanto se desce uma escadaria em Montmarte. Violino lindo. Guitarra única. Um, dois,...Um, dois, três...
Jazz in Paris; S.Grapelli e Django R. Gitanes Productions; Universal Music France
Hoje sente-se o quente. Chegou respeitoso. Chegou incerto. Nunca como as flores, determinadas e coerentes. As cores.
Como já se falou nestas aventuras, deixou sempre o nosso heroi, o privado longe dos olhares, mesmo discretos, deixou o particular discreto como se fosse um bem escasso.
Tudo certo, como se fosse possível a quem escrever, fazê-lo sem se revelar. Seja golpe maldoso, queda de ponte, confusão ou imbecilidade. O mal e o torpe são mais fáceis de partilhar e assim tem sido de forma clara até à data. A data é hoje. Um dia tão cheio de memórias boas que o nosso personagem corre o risco de se tornar menos secreto. De falar das coisas doces e serenas com aquela facilidade de quem luta contra imbecilidades e monstros mediocres. O que aqui se conta parecerá pequeno ou grande conforme os olhos e ouvidos e coração do leitor, que nestas coisas de sentimentos conta tanto o que assiste como o que é assistido. Hoje, antes de ir para a horta o nosso João deixou um bilhetinho em cima da cómoda, escrito num papel àspero de cor mas suave de feitio.
Meu Amor.
Não escrevo para saberes o que não precisas, porque sentes. Deixo-me aqui exposto para ti, como sempre foi feito pela simplicidade dos elementos da natureza.
Não deixo quadro ou aguarela porque hoje só me apetece partilhar cores impossíveis.
Nada de jóias ou arminhos ou flores cortadas a sangrar seiva.
Hoje vamos ser mais verdadeiros. Como ontem e antes e sempre. Comemore-se o tempo com a certeza, a vontade de um grande amor.
Teu
JSM
Sai à rua e ergue a esperança. Hoje vai ser dia de gritar. Vai de braço dado, com um e outro e todos. Somos tantos. Somos todos. Só hoje um só.