Foi com olhos doces e postura de senhor que o Treinador Taradinho veio falar a todos os Choraquelogobebences.
Estava um homem diferente e aparentemente recuperado das suas maleitas ou simples mau feitio. Por magias que não se sabe quais ou efeito de uma qualquer mezinha antiga, o TT lá estava sereno, sem morder o lábio nem espumar da boca em acto convulsivo. Estava numa espécie de fase de aura e só dizia coisas do tipo: eles mereceram ganhar; foram realmente melhores; estivemos bem, mas o nosso adversário mereceu esta vitória.
Estava o TT nisto e noutras referências conformadas quando um menino que estava na audiência se levantou e entregou uma camisola do seu Clube de Chinquilho ao Treinador Taradinho. Este olhou-a de cima a baixo, mirou e remirou. Emocionado, não conteve as lágrimas pesadonas e assoou-se profundamente numa manga da dita camisola.
O Treinador Taradinho estava um homem novo, fez as pazes com os adeptos e já não precisava sair de Choraquelogobebes. Um alívio para todos.
João Sem Medo estava na fila da mercearia da Deolinda e esperava. Esperava pela sua vez para pagar a conta e levar os necessários ensacados para casa. Estava nesta espera o nosso João quando mesmo em frente do lado de quem sai porta fora ou dentro conforme o sentido da deslocação, estava um jovem bem posto com seu telefone ultra-pessoal espetado no punho e auricular na respectivo cartilagem.
João estava com fome e sabe-se que a fome aguça o ouvido numa associação estranha de ouvir e mastigar, captar sons e salivar. Nesta incapacidade de controlar os instintos da biologia ou da física da hora de almoço que tardava, João ficou mais atento à conversa.
Dizia o jovem com tom pastoso e falso: Obrigado. Muito obrigado Tia Cardosa. Era mesmo o que eu precisava. Uma ocupação de tempos livres remunerada. Muito obrigada. Mas esse é o ordenado de Juiz Conselheiro!? E imediatamente abaixo de primeiro-ministro!? e também tem direito a despesas de representação? ... e carro!? Sim! Esse ... mas não é bom demais?... também não queria abusar...e ... pois... o papá não vai esquecer...muito obrigado Tia Cardosa. Já agora queria saber se ... não queria maçar ... poderei levar também a Dulcinha para minha secretária é que ela...sabe Tia nós estamos de namoro e ...
Nisto chegou a vez de João pagar e andar, hoje ia fazer uns magníficos ovos escalfados e a ideia de comer, mesmo que imaginada cortava aquela sensibilidade de ouvidos que tresandava a indecência imoral.
Choraquelogobebes por vezes quer ser uma terra normal. Um país como os outros. Organizado. Com iniciativa. Dinâmico. Com gente que se coloca em bicos de pés e diz. estou aqui. Mesmo que toda a gente já o soubesse e isso fosse irrelevante.
Nesta busca de normalidade, realizou-se em Choraquelogobebes uma reunião de empresários. Dito assim, até parece coisa séria. E é. Não porque não seja legítimo que gente garbosa e respeitada se junte para comer umas pataniscas, beber uns copos de vinho da adega do Justino e lançar à surdina duas ou três histórias maldosas de maridos encornados e visitas esconsas a casa da Bernardete, mas pelo facto de tal reunião se ter realizado com pompa e muitas circunstâncias.
Neste momento já o leitor está a pensar clicar e fugir deste cenário porque não lhe interessam as lides da finança, da gestão ou simplesmente das contas de multiplicar por um. Faz bem, se assim for por rebeldia. Mal, por desistência.
Continuando. Ia João para a sua horta passo ante passo, empurrando o carrinho de mão, quando foi ultrapassado por uma carroça de último modelo puxada por um macho reluzente. Grande máquina tens aí ó Zé Maria do talho. João mal teve tempo para ouvir a resposta. Vou ao congresso Zás mais uma chicotada nos costados do bicho e vrum para a frente é que é caminho. Passado um bocadinho, que nestas coisas de tempo é o que o leitor quiser, aparece o Benedito às costas do Raúl. O Benedito ia todo anafado no fatinho de alpaca justo e o Raul transpirado acelerava na curva com o cliente às costas. Nem bom dia, nem bons dias, vrum para a frente é que é caminho.
Ao que iam apressados tão importantes nomes de Choraquelogobebes?
Sabem os leitores de narrativas passadas que andaram pela horta de João Sem Medo animais selvagens em fúria. Que os bichos maltrataram-se, unhadas e mordidas foram mais que muitas. Ao ponto das suas peles de felinos, lustrosas, ficarem com nódoas cor-de-rosa velho – os hematomas dos felinos originam umas tumefacções rosadas por baixo dos pelos - e as sementeiras da horta acamadas pela passagem enovelada dos bichos.
Depois destas lutas, que João resolveu com umas valentes vassouradas, tendo o cuidado de acertar do outro lado dos hematomas para não castigar demais os animais e não ser acusado de malvadez ou reanimalismo, que é uma espécie de racismo em relação à bicharada, os ditos felinos zarparam cada um para seu lar. A Doninha ficou num quintal do Ti Zé Rato contíguo à horta de João Sem Medo e o Gineto foi para bem longe, visitar uns primos Ginetos na selva, no deserto ou sabe-se lá onde. Um onde que por ser longe não deixa de ser uma preocupação para a Doninha.
A bicha por ser matreira e levantada das vontades, só esperou que as feridas cicatrizassem, que as unhas partidas se compusessem e depois dos últimos retoques na pelugem ala que se faz tarde. Fez as malas e por tema de ir a saldos ou estudar as condições das doninhas fêmeas noutras partes. Partiu.
Não pense o leitor que esta viagem é inocente ou mesmo caridosa e solidária da Doninha com as outras doninhas. A marota sabe que nessas viagens vai encontrar o Gineto e pode ser que pela distância ou pela fragilidade do dito, estando á tanto tempo fora de casa, lhe possa valer, que na linguagem dos felinos e de gente traiçoeira significa – morder e espetar a unha à traição.
Todas as crianças, na idade em que o são. Quando têm todos os sonhos e a fantasia é apenas uma estrela do mar a brilhar no céu do quarto na companhia de uma lua cor-de-tangerina ao lado de um sol recortado em cartolina simples, as crianças magicam universos fantásticos.
Viajam a planetas distantes, saltam muros de castelos encantados para brincar com dragões ferozes mas com um fundo bom porque afinal o seu fogo aquece as noites mais frias e podem voar por cima dos montes e florestas escuras, abordam piratas de perna de pau falsa, dá muito jeito aos piratas uma perna de pau para se agarrarem quando caiem ao mar, viajam em naves que podem ser simples almofadas ou um muro de areia na praia. A Fada dos Dentes é um desses seres mágicos e invisíveis.
Em casa de João Sem Medo a Fada-dos-dentes não era uma fada normal, tipo fada com vestidinho de cetim azul bébè e tiara de princesa do castelo e varinha de condão. A Fada dos Dentes lá de casa, tinha mesmo dentes. Andava em quatro patas pelo conforto de tal apoio para a coluna e para os salto daqui para ali. Tinha bigodes mas era uma senhora. Tinha pêlo mesmo sem casaco de peles. Era a gata Pantufa. A Pantufa era uma espécie de coordenadora dos humores, de donzela da elegância, de mãe que castiga quando alguém se porta mal ou pisa o rabo. A Pantufa era especial. Tão especial que era a responsável lá em casa por todas as coisas mágicas que aconteciam.
O açucareiro que aparecia partido no chão. O cortinado limpo e liso e subitamente desfiado e pendente. O sofá recortado artisticamente. E por ai fora numa lista de inúmeras magias. Umas mais, outras nem tanto, mas todas fantásticas por serem súbitas e aparecerem do nada. Para os leitores que achem que nada disto tem grande magia, lembra o narrador que a Pantufa ou Fada dos dentes era a responsável por fazer aparecer debaixo da almofada do filho de João uma surpresa quando caia algum dente. Desde o princípio tinha sido assim. Dente caído. Brinquedo, livro, goma, chupa aparecido na manhã seguinte, guardados pelo olhar falsamente ensonado da Pantufa ao fundo da cama.
Os dentes caiam e já iam na dezena de quedas, quando a Pantufa decidiu ir para o céu dos gatos ou para o Bosque das Fadas (como já se contou noutra entrada deste folheto virtual). Aconteceu assim, a partida anunciada e magoada como todas as viagens para não se sabe onde, num dia chorado de chuva triste. A natureza não se compadece dos gatos, da vida em geral e dos dentes que continuam a cair e a marcar o tempo. Agora sem Fada, sem carrinhos, nem gomas, nem brinquedos. Apenas a saudade.
Agita-se. Morde o lábio. Escreve impropérios. Ajeita o cabelo eriçado sem o conseguir. Chuta um gato vadio no Calcanhar de Aquíles. Golpeia desnorteado um caixote do lixo. Tudo de uma vez. Assim expressa a sua angústia o Treinador Taradinho (também conhecido pelo TT pelos seus conhecidos).
O Treinador Taradinho é uma figura estranha, se é possível catalogar semelhante personagem na panóplia de figurões do mundo do chinquilho em Choraquelogobebes, o TT é realmente exótico e único na diferença. Só ele sabe como ninguém sabe, as artes da malha e do lançamento em direcção ao céu e ao belho logo em seguida. As leis físicas da queda dos objectos e da atracção da gravidade certa dos metais. As relações massa-velocidade dos objectos têm poucos segredos para ele.
O Treinador Taradinho treina como ninguém os lançadores de Choraquelogobebes. Toda a gente sabe que é o melhor. Ele sabe que é o melhor. Toda a gente sabe que ele tem problemas que é uma forma condescendente de desculpar as suas maleitas. Ele acha que é mau. E nesta verdade de uns e mentira de outros, fica a certeza de todos – o Treinador Taradinho tem muito mau feitio. Mas isso é irrelevante perante o génio.
Os habitantes de Choraquelogobebes, até desculpavam a sua animalidade histérica e acenos de infância desprotegida, mas agora era demais. Sempre que os jogos de chinquilho não corriam a seu contento o TT desatava a correr e a espumar da boca pelas ruas fora e apanhava dos varais e arames de roupa todas as peúgas com riscas e mordia-as, resfolegava, e entre movimentos bruscos de cabeça não sobrava mais que farrapos têxteis. Havia quem fugisse, outros mais sensatos, ou amigos das suas peúgas, recomendavam um açaime ou simplesmente dois ou três pontos de linha forte na boca. Um alívio.