Na noite deste dia, depois de um cinema abandonado volto à esplanada e ao poema.
Mario Cesariny
Nestas crónicas ou narrativas ou ambas as coisas que o estilo literário não interessa quando a prosa dos acontecimentos revela-se mais generosa que a forma de relato dos ditos, já se tinha falado de Anjos.
Os Anjos são seres raros e mágicos e isso não é novidade para ninguém. São entes que surgem na vida das pessoas, súbitos e discretos e com os seus poderes provocam grandes revelações e descobertas. Para muitas pessoas os Anjos são a única forma de olharem para dentro de si e pensarem: “isto não está bem” ou simplesmente “isto ou aquilo são coisas boas”.
Os Anjos não são só enzimas que aceleram a descoberta de “coisas”. Aqui “coisas” designam tudo. E como tudo é difícil de definir, arranjou o autor desta prosa a definição de “coisa” para o que verdadeiramente conta, sejam coisas propriamente ditas, sensações, carinhos, mimos ou outras formas de sentir que se está vivo.
Desta vez João sem Medo conheceu um AnjoSensível. Estes são primos dos AnjosBons na linha descendente dos AnjosQueSabem e dos AnjosMeigos. O AnjoSensível também se desloca em naves que voltam não se sabe de onde, apenas se suspeita de um sítio sem tempo, um lugar distante envolto em brisa de Mar-Norte e névoa. Um lugar eterno. Dizem os escritos antigos que os AnjosSensíveis são amantes de Banshees e como tal são hábeis em fazer os outros ficarem mais sensíveis, como se a magia das suas amantes se projectasse do seu coração, tipo raio laser que anestesia e deixa um rasto de felicidade.
Quem conhece um AnjoSensível dorme um sono profundo e quando acorda lembra-se de coisas boas. Só de coisas boas. Na pele um ou outro fio de seda de muitas cores. Nos ouvidos sons de harpas e a voz distante de fadas celtas. Um hino à alegria ou à liberdade!?
Há neste país uma espécie de nostalgia doentia do tipo “antigamente é que era bom” e de conformismo bacoco do género “os outros ainda estão pior”. Entalada nestas avaliações pobres de espírito surge outra não menos larvar – “amanhã logo se vê” – a hesitação.
Em Choraquelogobebes parece que nunca deixa de chover e quando começa a chover um pouco menos, toda a gente acha que o dilúvio de ontem era só uma chuva-molha-tolos e a chuva de hoje é uma chuva-a-cantaros. Nestes equívocos de gente anestesiada caminham os choraquelogobebences entre nada e coisa nenhuma que é a melhor forma de ter mais preocupações e não tomar nenhuma decisão.
O passado em Choraquelogobebes é glorioso, glorioso pesado e uma âncora de todas as coisas boas. Mas é um passado muito passado e não um passado de ontem que se possa tornar um futuro hoje. È uma espécie de teia de aranha antiga, que já não tem aranha, mas ainda mata moscas incautas. Neste caso mata a determinação e a ousadia de ousar.
A palavra atraso não liga com Choraquelogobebes, porque não vai a lado nenhum. A pacatez morna e a disponibilidade simpática do sorriso são a principal arma de arremesso dos que acham que assim é que está bem, e por serem a maioria estão mesmo bem. A redundância dos factos torna-os verdade, mesmo que sejam idiotas.
Choraquelogobebes tem expressão genética assente nestes irmãos medíocres – a saudade, o conformismo e a hesitação e como pai a falta de responsabilidade e mãe a ignorância. Uma mistura explosiva que justifica tudo ou quase tudo.
Vale ao nosso herói a gabardina que serve de atabafo para tanto humor aquoso e quando quer ser afirmativo é pegar ao jeito de “vou-me embora” e ir.
O frio chega e com ele uma brisa de espadas. Quando se tenta sair da cama os lençóis parecem ter braços que agarram João, tentáculos que afirmam a cada momento – daqui não sais. E assim fica João Sem Medo, atrofiado entre a flanela dos panos e o querer que não é muito.
Hoje não é dia relevante na horta. Tudo se resume a semear uma ou duas cestas de batatas e esperar que a chuva venha para garantir o viço das plantas e evite a geada. A geada é uma espécie de inimigo invisível das noites frias sem chuva. Nestas alturas, a terra dorme, letárgica e espera-se que os primeiros dias longos e quentes acordem todas as sementes e quereres vegetais.
Esta conversa de elementos das estações serve só para entreter. È uma forma de ganhar tempo, de evitar a decisão final. Levantar e pronto.
Afinal os lençóis-polvos começam a perder força e a determinação aumenta. Está na hora.
Nada. Nada mesmo. Nem arte de poda. Nem técnica de embarrar pés de feijão. Nem exertia de pêra em marmeleiro. Nada tem este carácter quase obrigatório de trabalho continuado e sacrifício como a música para o nosso heroi, andado por tantas andanças. Caminhado por quase todos os caminhos. Pedras, xistos, urzes...todos os géneros de acidentes eram ultrapassados de uma penada.
A música não. Um Dó tem mais dificuldade que um abismo e uma colcheia exige mais tempo que uma breve, que por não o ser é mais longa e mentirosa. Fala-se deste trabalho, desta grande trabalheira, porque o nosso homem (quase sempre designado nesta narrativa por heroi, mas nestas coisas da música assumido como um homem simples), decidiu tarde no tempo descobrir o prazer de tocar, de passar os dedos pelas cordas e descobrir que sai som. Umas vezes ténue, outras bonito, outras ainda mais bonito e do conjunto de sons, mesmo pouco harmoniosos, faltos de tempo e escassos de ritmo suge a maravilha do compasso. Fazer. Fazer som. Fazer um depois de outro e outro e um conjunto de outros e dos mesmos e resultar o espanto. O espanto do resultado, de tanto trabalho que o pequeno resultado sai enorme.
Todo este espanto porque ouvia ao longe ou perto que para aqui não interessa e o longe dá mais valor para o encanto da descoberta, umas notas de Peer Gynt e João largou a mó onde afiava uma podoa e soltou nos ares um grito - isso é o que toco ou quase.
Assim começava mais um dia. João erguia-se num só movimento e já estava pronto. João preparava-se para a ida. E ia. era bom começar assim o dia. Determinado, sem aquela hesitação de vou-não-vou, acordo-não-acordo.
Depois destes preparativos instantâneos, João ia ver o tempo. Era sempre a primeira preocupação. Se chovia, se o sol escaldava, se ambas as coisas adivinhadas numa nuvem que surgia ou num raio de sol que despontava sobre a serra. O tempo era muito importante para a horta e para a felicidade.
Assume o nosso herói essa fragilidade das estações, essa dependência de humores do calendário. Chuva ou sol não eram a mesma coisa. E a essa verdade de pedra, soma-se o facto de chuva significar oleado e capa e galochas e todas as coisas práticas para proteger das águas, mas que tolhem os movimentos. Mas dizia que do verão, ficam as roupas frescas e leves e libertas. Essa liberdade causava uma sensação boa de pele livre. As tardes quente são companheiras da sesta.
Hoje chove uma chuva manhosa. Que saudades de uma sesta. Nestes pensamentos e com capa, e chapéu de oleado e galochas saiu o nosso João para a horta.
Havia grande confusão em Choraquelogobebes. Andavam todos em desconformidade. A esquerda ficava à direita, a direita ficava à extrema. O cimo era em baixo e o baixo estava alto. As crianças atravessavam fora das passadeiras. Os carros andavam pelos passeios. As marés ficaram alteradas, subiam três e mesmo quatro vezes ao dia. A neve derretia e o sol desapoiado, não sabia onde nascer, se nas montanhas se no mar, qual peixe-voador celeste. As flores desabrocharam no Inverno.
Nesta confusão de ser e não-ser, nesta incongrência de sentidos, João Sem Medo temia pelos elementos. Que a terra mudasse o sentido de rodar, que as músicas começassem a tocar ao contrário. Que todas as coisas começassem a ser conhecidas pelo que não eram. As que foram deixassem de ser e as outras culpadas deste desvario. Cada vez parecia mais importante que ninguém pudesse mandar tirar os sinais. Afinal ainda são a única forma de conservar o passado seguro, o sentido certo das estradas, o navegar em porto seguro, o fazer certo de cada um, as estrelas no céu, o bilhete de identidade da pele.
Erik Satie - Gymnopédies; Gnossiennes; Nocturnes... - Aldo Ciccolini - EMI Classics (Great Recordings of The Century).
Começou o ano com festas e balanços em Choraquelogobebes. Os videntes saíram à rua para mostrarem a sua sabedoria. Nenhum era o mesmo do ano passado. O Professor Sabichão deu lugar ao Mestre Olúm e a Maga Cinderela transformou-se na Princesa Lantejoula. João Sem Medo não suporta aquele tédio de sabedoria falsa, aquele saber sem saber que até dói nos ossos.
Para fugir das previsões e do diz-que-adivinhas, o nosso herói ouve música. Qual a melhor solução para tanta mediocridade? Resposta: o pim, pam, plim de um piano tranquilo. Sem fugas, nem alegrettos, nem adágios tristonhos. Música essencial, sem excessos nem simples frieza da competência.
Nada melhor para começar um dia simples, um ano. Simplesmente, começar a ouvir...
Todo o ano. Cada minuto, hora, segundo, que a ordem não interessa, mas o que acontece em cada instante sim, Choraquelogobebes andava triste, abatida, com a auto-estima em baixo, a auto-estima é uma espécie de apêndice cerebral, que os Choraquelogobebences têm implantado entre os hemisférios cerebrais, andavam todos, nesses instantes somados, que por serem partições do mesmo tempo, são um só - tristes.
Desta forma se contam os abatimentos e melancolias dos Choraquelogobebences, constatação já feita em anteriores narrativas e por tal sem novidade para o leitor. Esta repetição de choros e fungadelas, tem para aqui sentido porque o ano se finda.
Nesta altura específica do calendário os Choraquelogobebences começam a animar e a rejubilar internamente, começam a deixar os klinexes e os renovas e os paninhos onde se assoam as mágoas contínuas e numa espécie de metamorfose colectiva partilham o frémito interno para a festa e para os balanços. Começam uns a rir desbragadamente e outros a pular e outros ainda as duas coisas em simultâneo ou alternadamente que é quase a mesma coisa.
Outros ainda, começam a fazer balanços e balancetes de tudo o que aconteceu no ano anterior. Estes factos, de relevância assumida, vão sendo escritos num quadro preto na praça principal de Choraquelogobebes e a população vai dando brados e urros e aplaudindo à medida que as notícias vão sendo implantadas no fundo preto com fonte 124 para toda a gente ver e outros lerem.
Dia 1 de Janeiro - Aumentos do preço do pão, àgua, luz e rendas de casa e do passe social do passadiço. Aplauso, brados, festas e abraços.
Dia 3 de Fevereiro - Grave acidente na estrada de acesso à Parvolândia, 3 mortos e 5 feridos graves. Aplauso, brados, festas e abraços e uma garrafa de jeropiga aberta.
Dia 23 de Março - A Selecção de Chinquilho de Choraquelogobebes perdeu 3-0 com a congénere de Matatouros. Pulos, brados e mais um copo de Jeropiga.
Assim continuava o ano desfiado em acontecimentos, uns reais outros de verdade aproximada para alimentar o suspense e o delírio festivo. Desta forma em alguns instantes de alegria pela tristeza revista, os Choraquelogobebes festejavam o ano, esperavam que todos os acontecimentos fossem revistos, todas as garrafas de jeropiga abertas e depois de tanta festança...começava a contagem para o novo ano. Um, dois, três e pumba.
O monco começa a vir lento e depois mais rápido pelas fossas nasais a baixo. A lagrimita nostálgica escorria pela face. Os namorados assoavam-se mutuamente apaixonados. A multidão começava a sair da praça e naquele instante de quinze ou dezasseis minutos já todos tinham regressando a casa tristes e mais tristes, uns com dor de estômago pela jeropiga outros com dor nas costas de tanto pulo e outros ainda com câimbras no maxilar de tanto rir. O ano velho recomeçara.