Sabem os leitores que João Sem Medo lida com as coisas da terra com a sabedoria de experiência feita. Que as cambiantes das sementeiras não têm segredos, que as manhas da poda da enxertia são tu cá tu lá com o nosso personagem.
Já perceberam que João Sem Medo vive numa espécie de perplexidade mágica entre a simplicidade dos elementos e a fantasia do inexplicável. Vive no desequilíbrio incerto entre cada coisa real que dói e as coisas inevitáveis da imaginação. Os sonhos.
Uma e outra são uma forma de encontrar a ponte entre o desejo e o tem que ser, entre o aceitável e o insuportável, ambos faces do mesmo rosto que são dois siameses. No meio desta confusão de palavras, como alimento, combustível de tudo o que mexe fica a agitação e a revolta. Coisas internas que cansam. A incapacidade da indiferença.
Nesta convulsão de coisas que acontecem não acontecendo o nosso João, olha o espelho ajeita a gola do oleado e sai para o campo. Na cabeça ecoava a palavra – tranquilidade. Repetia para si que aquela hora pedia recolhimento – tranquilidade, tranquilidade... .
Assim continuou mais uns metros terra dentro com as bota enlameadas. Tranquilidade. Tranquilidade. Até que uma balsa se prendeu nas calças logo acima do cano das galochas e tinha que agir. Com tranquilidade, repetiu mais uma vez.
Bela, esta tranquilidade.
E belo este manejar da língua portuguesa.
Um bom poema narrativo.
abraço