julho 28, 2004

No calor do calor

João Sem Medo está à soleira da porta, olha o palha seca vergada ao sol. Levanta um pouco a cabeça e inspira fundo um ar quente que não escorrega pela garganta e teima em colar-se à pele em suor. Assim fica, durante uns segundos, a sentir o calor a escorrer pelos montes, pelo ardor nos olhos, alto a cima e a baixo, vales sem parar. O fogo.

O verão instalou-se em Choraquelogobebes bruto e traiçoeiro, numa impiedade insuportável de incêndios e mais incêndios. Nesta impaciência corrida de labaredas sobra um sentimento de perdição. O abandono.

João Sem Medo tem a mania, que é uma espécie de defesa contra o incómodo, de mudar o rumo das percepções quando estas atingem o limite do aceitável. È uma espécie de negação pela distracção e não pela ignorância, que liberta o nosso João da prisão da causa-consequência-directa que afecta os espíritos atentos. A razão.

Nesta fuga de metáfora e figuras de estilo, João Sem Medo retêm imagens de praias e calores distantes, mornos, com corpos sensuais a rebolarem enleados na espuma das ondas ou a beber um copo de vinho branco frio à sombra, amantes tropicais em juras impossíveis como se o calor fosse sensual e o amor possível. A mentira.

Publicado por joão sem medo em julho 28, 2004 03:46 PM
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