julho 15, 2004

Memória da Fada dos Dentes

Andava o tempo teimoso de chuva num inverno acelerado de águas quando se finou a Fada dos Dentes. Depois da mágoa que tal perda representou para João Sem Medo e para todos os corações que partilhavam as festas, as sonecas no sofá e as magias da gata Pantufa, parecia que nada mais fantástico aconteceria, que mais nenhum bicho seria recebido de braços e de dobra do lençol abertos.

A morte fora anunciada antes com veredicto temporal certo e se isso permitiu que os corações ficassem mais compassados com o destino não os tornou menos frágeis, não atenuou o abalo inevitável da despedida.

Durante um tempo parecia que os miados das quatro e quarenta e cinco da manhã continuavam, o raspar das pedras da higiene matinal eram os mesmos, que as unhas continuavam a aparecer vincadas nos sofás e que o colo continuava preenchido pelo “monte de pelos” que era a Pantufa enrolada sobre si mesma.

Esse tempo foi o suficiente para perceber que a vida se enche de pequenas coisas e que as coisas pequenas passam a grandes por serem certeiras no nosso coração.

Publicado por joão sem medo em julho 15, 2004 12:28 PM
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