João Sem Medo já se sabia, tem dificuldade em conviver com as datas, boas ou más, por estarem marcadas no calendário da memória com uma cor diferente, são mais difíceis de digerir e de passar simplesmente como se passa por um dia comum. Um dia daqueles que passam sem passar e só se acoitam em significado quando se nasce, morre ou ama. E nesses dias o comum é passar a respirar por qualquer lado e não se lembrar que água, pedra ou caminho se calcorreou.
Hoje não é um dia desses para João, é dos outros, dos que contam marcados. Dos que são só uma vez por ano. Aniversário. Hoje é a oportunidade de todos os que contam darem à costa com um ar de descoberta de uma grande felicidade, de virem cobertos de mantas douradas e conchas do mar e de lembranças recordadas doces. Hoje qualquer navio que aporte vai estar engalanado e marear águas calmas e tépidas, mesmo que à casa de João só chegue os murmúrios de uma ribeira ao fundo da horta. Na simplicidade de águas curtas entre pedras vão surgir grandes mares e marés que descobrem os fundos da alma e do coração. Um espécie de conquista anunciada da fragilidade da infância.
Hoje a palavra parabéns vai ser pintada, dita, escrita, cantada e tocada se o filho de João conseguir afinar o violino, senão toca-se na mesma porque o coração só ouve afinações amorosas.