João Sem Medo senta-se na soleira da porta e olha para um monte de terra seca onde acenam malvas, inquietas e selvagens. João olha e volta a olhar com os mesmos olhos, mas diferentes porque não são olhos de ver cores e folhas e flores, mas antes olhos que procuram razões para o resultado do jogo de ontem entre Choraquelogobebes e Mousaka. Nada melhor que as flores para afastar as mágoas de um desaire, que embora atenuado pelas glórias recentes, deixa um gosto azedo de “poderia-ter-sido-tudo-diferente”.
Nesta originalidade de olhar para as flores e tentar encontrar razões, se as há, para a vitória da equipa de Mousaka, fica-se o nosso João a pensar conformado que a beleza, o espectáculo de cores, de qualquer flor amarrada num vaso, de uma planta presa e linda, viçosa e cheia de gotas de orvalho milimétricas colocadas pela mão certa de um jardineiro habilidoso, contrastam com a força retorcida das malvas, das cores empoeiradas, dos caules ásperos, retorcidos e tisnados pelo sol inclemente.
As malvas são flores que marcam em cima de qualquer seca, resistentes, que teimam em crescer com uma ordem que parece força. Assim foi a selecção de Mousaka, uma equipa de malvas ásperas que cortaram a beleza espectacular de flores rubras, lindas, de formas dançarinas, que iam e vinham, iam e vinham, mas acabaram por ficar onde não queriam, tolhidas pelo seu próprio espectáculo. Vencidas à força das malvas.