Uma chuva miudinha de arame trespassava o oleado e o céu. Nesta Primavera incerta o tempo estava do contra que é o mesmo que haver figos em Dezembro ou uvas em Maio. Na incerteza dos elementos e perante a teimosia aquática do céu, João Sem Medo limitava-se a andar de um lado para o outro na horta a prender um ou outro galho de videira, a cortar uma folha seca de couve ou a ajeitar uma folha de alface comida por uma rosca.
Andava o nosso João - que por ser de todos é mais livre para não ser de ninguém - nestas levezas, quando ao passar pelos nabos descobriu um que estava fora da terra. Nesta urgência mole de quem não está a fazer mais nada do que o que faz para enganar outros afazeres mais importantes, João ajeitou a cabeça do nabo e puxou em redor a terra para tapar a raiz protuberante.
Calma ai. Respondeu o nabo num tiro-frase certa em direcção ao bem-intencionado João. Porque razão você tem que influenciar a vida dos outros? Nisto entre a surpresa e o susto, o nosso João olhou incrédulo para o Nabo e respondeu. Eu...O nabo continuou. È isso mesmo. Você tem um problema no “eu”!!! Mas...tentava continuar João Sem Medo. Claro, que também tem um problema de auto-estima que o leva a exercer o seu poder sobre os mais fracos. Continuava o nabo numa espécie de dialéctica psicoterapêutica alheio à chuva miudinha e à indiferença dos outros nabos e couves e alfaces e demais hortícolas.
Mal deu por si já o João estava recostado entre dois fardos de palha junto ao celeiro com o Nabo à cabeceira a fazer perguntas com um ar sério ou simplesmente a emitir sons com uma boca falsa. Uhum. Uhum... Uhum. Uhum...