João Sem Medo estava na fila da mercearia da Deolinda e esperava. Esperava pela sua vez para pagar a conta e levar os necessários ensacados para casa. Estava nesta espera o nosso João quando mesmo em frente do lado de quem sai porta fora ou dentro conforme o sentido da deslocação, estava um jovem bem posto com seu telefone ultra-pessoal espetado no punho e auricular na respectivo cartilagem.
João estava com fome e sabe-se que a fome aguça o ouvido numa associação estranha de ouvir e mastigar, captar sons e salivar. Nesta incapacidade de controlar os instintos da biologia ou da física da hora de almoço que tardava, João ficou mais atento à conversa.
Dizia o jovem com tom pastoso e falso: Obrigado. Muito obrigado Tia Cardosa. Era mesmo o que eu precisava. Uma ocupação de tempos livres remunerada. Muito obrigada. Mas esse é o ordenado de Juiz Conselheiro!? E imediatamente abaixo de primeiro-ministro!? e também tem direito a despesas de representação? ... e carro!? Sim! Esse ... mas não é bom demais?... também não queria abusar...e ... pois... o papá não vai esquecer...muito obrigado Tia Cardosa. Já agora queria saber se ... não queria maçar ... poderei levar também a Dulcinha para minha secretária é que ela...sabe Tia nós estamos de namoro e ...
Nisto chegou a vez de João pagar e andar, hoje ia fazer uns magníficos ovos escalfados e a ideia de comer, mesmo que imaginada cortava aquela sensibilidade de ouvidos que tresandava a indecência imoral.