Sabem os leitores de narrativas passadas que andaram pela horta de João Sem Medo animais selvagens em fúria. Que os bichos maltrataram-se, unhadas e mordidas foram mais que muitas. Ao ponto das suas peles de felinos, lustrosas, ficarem com nódoas cor-de-rosa velho – os hematomas dos felinos originam umas tumefacções rosadas por baixo dos pelos - e as sementeiras da horta acamadas pela passagem enovelada dos bichos.
Depois destas lutas, que João resolveu com umas valentes vassouradas, tendo o cuidado de acertar do outro lado dos hematomas para não castigar demais os animais e não ser acusado de malvadez ou reanimalismo, que é uma espécie de racismo em relação à bicharada, os ditos felinos zarparam cada um para seu lar. A Doninha ficou num quintal do Ti Zé Rato contíguo à horta de João Sem Medo e o Gineto foi para bem longe, visitar uns primos Ginetos na selva, no deserto ou sabe-se lá onde. Um onde que por ser longe não deixa de ser uma preocupação para a Doninha.
A bicha por ser matreira e levantada das vontades, só esperou que as feridas cicatrizassem, que as unhas partidas se compusessem e depois dos últimos retoques na pelugem ala que se faz tarde. Fez as malas e por tema de ir a saldos ou estudar as condições das doninhas fêmeas noutras partes. Partiu.
Não pense o leitor que esta viagem é inocente ou mesmo caridosa e solidária da Doninha com as outras doninhas. A marota sabe que nessas viagens vai encontrar o Gineto e pode ser que pela distância ou pela fragilidade do dito, estando á tanto tempo fora de casa, lhe possa valer, que na linguagem dos felinos e de gente traiçoeira significa – morder e espetar a unha à traição.