fevereiro 04, 2004

A Fada dos Dentes

Todas as crianças, na idade em que o são. Quando têm todos os sonhos e a fantasia é apenas uma estrela do mar a brilhar no céu do quarto na companhia de uma lua cor-de-tangerina ao lado de um sol recortado em cartolina simples, as crianças magicam universos fantásticos.

Viajam a planetas distantes, saltam muros de castelos encantados para brincar com dragões ferozes mas com um fundo bom porque afinal o seu fogo aquece as noites mais frias e podem voar por cima dos montes e florestas escuras, abordam piratas de perna de pau falsa, dá muito jeito aos piratas uma perna de pau para se agarrarem quando caiem ao mar, viajam em naves que podem ser simples almofadas ou um muro de areia na praia. A Fada dos Dentes é um desses seres mágicos e invisíveis.

Em casa de João Sem Medo a Fada-dos-dentes não era uma fada normal, tipo fada com vestidinho de cetim azul bébè e tiara de princesa do castelo e varinha de condão. A Fada dos Dentes lá de casa, tinha mesmo dentes. Andava em quatro patas pelo conforto de tal apoio para a coluna e para os salto daqui para ali. Tinha bigodes mas era uma senhora. Tinha pêlo mesmo sem casaco de peles. Era a gata Pantufa. A Pantufa era uma espécie de coordenadora dos humores, de donzela da elegância, de mãe que castiga quando alguém se porta mal ou pisa o rabo. A Pantufa era especial. Tão especial que era a responsável lá em casa por todas as coisas mágicas que aconteciam.

O açucareiro que aparecia partido no chão. O cortinado limpo e liso e subitamente desfiado e pendente. O sofá recortado artisticamente. E por ai fora numa lista de inúmeras magias. Umas mais, outras nem tanto, mas todas fantásticas por serem súbitas e aparecerem do nada. Para os leitores que achem que nada disto tem grande magia, lembra o narrador que a Pantufa ou Fada dos dentes era a responsável por fazer aparecer debaixo da almofada do filho de João uma surpresa quando caia algum dente. Desde o princípio tinha sido assim. Dente caído. Brinquedo, livro, goma, chupa aparecido na manhã seguinte, guardados pelo olhar falsamente ensonado da Pantufa ao fundo da cama.

Os dentes caiam e já iam na dezena de quedas, quando a Pantufa decidiu ir para o céu dos gatos ou para o Bosque das Fadas (como já se contou noutra entrada deste folheto virtual). Aconteceu assim, a partida anunciada e magoada como todas as viagens para não se sabe onde, num dia chorado de chuva triste. A natureza não se compadece dos gatos, da vida em geral e dos dentes que continuam a cair e a marcar o tempo. Agora sem Fada, sem carrinhos, nem gomas, nem brinquedos. Apenas a saudade.

Publicado por joão sem medo em fevereiro 4, 2004 09:10 AM
Comentários

Ver a minha Xena como a Fada dos Dentes a partir de hoje, vai torná-la ainda mais especial!
E eu já desconfiava que existia alguma explicação lógica para toda aquela magia que acontece lá em casa, afinal, as meias e as cuecas só saltam todas ao mesmo tempo da gaveta para fora se for obra algum tipo encantamento... hehehehe

Quanto a sua Pantufa, não se esqueça que os seres mágicos não desaparecem nunca do nosso imaginário, podem afastar-se um pouco do nosso convívio, mas nunca se esquecem de nós... e vice-versa!

Afixado por: Patricia em fevereiro 6, 2004 03:48 PM