João Sem Medo não é dado a grandes hesitações, embora seja homem de grandes dúvidas nunca deixa que "o pode ser , mas também não pode" lhe limite o querer e a determinação do juízo.
O Natal é um dos poucos temas em que oscila nesse limbo de indecisão e o faz pensar mais que uma, e outra e outra ainda vez, até serem muitas e ainda mais. O Natal encerra para João uma perversidade sem igual.
As iluminações irritantes, os fritos gordurosos, as prendas convenientes e mais luzes a piscar sem sequência ou teimosas permanentes com tons férreos. Um desgosto de bolas e mais bolas e brilhos e uma espécie de lufa-lufa-aqui-vou-eu de atropelos. Esta espécie de torpor causa um grande incómodo ao nosso personagem. Por vezes fica estático a ver passar aquele comboio humano de olhos virados para as montras ou monstras que vão chamando com olhinhos doces – “Vem”; “vem”; “vem” – e os Choraquelogobebences vão, atraídos pelas fitinhas e laços e mais bolinhas e por ai fora num ritmo infernal de sacos, sacolas e tentáculos de papel estampado.
Perante esta canseira hipócrita não há hesitação. Chega de correrias, de frituras e filhoses e obrigações. Abaixo as lojas dos 300 sem imaginação e as prendas para as tias que-só-se-sabe-que-existem-porque-recebemos-umas-peúgas. Fim ao Pai-Natal com roupas de flanela e barbichas de algodão, falsos a esconder a magreza com camisolas e mais camisolas de lã.
João Sem Medo desejava muito que nevasse em Choraquelogobebes, para que não fosse preciso pintar as janelas com neve falsa, uma espécie de “graffiti” natalício de mau gosto. João Sem Medo desejava muito que o Pai Natal fosse verdadeiro e entrasse mesmo pela chaminé e fosse um velhote doce e amigo e não um boneco estrangulado numa janela de terceiro andar igual ao outro que está no prédio ao lado entalado na sacada da varanda, com um saco às costas de presentes vazios e sem alma.
Porque que será que no Natal, os "bons" de Choraquelogobebes têm a mania de dar bacalhau aos pobrezinhos em ceias com um ar terrivelmente forçado?
As pobres Choraquelogobebes "pobres" têm sempre um ar tão infeliz...