Tristeza. Fungadelas. Braços caídos. Desalentados. Monco. Mais monco. Assim continuavam os Choraquelogobebences depois da revelação. A Copa da Saca-à-vela não ia ser realizada em Choraquelogobebes. Traiçoeira a organização tivera outros desejos ou estímulos e arredara para outros ventos (que para aqui não são chamados, nem fazem falta para tal desporto).
Choraquelogobebes já estava engalanada, de orgulho erecto, esperta e desperta, para a grande ocasião. O sonho esfumou-se. O termos é mesmo quando se trata de Saca-à-vela.
Já tudo tinha sido pensado, equacionado e pensado outra vez. A prova ia realizar-se na Praça Central, os feirantes corridos à vassourada ou com um subsídio para deslocações. O armazém dos tractores do Teodósio servia para guardar as sacas. O Celeiro do Barnabé para as equipas dormirem. Bastava tirar de lá duas ou três ovelhas, ou nem isso, que poderiam servir as ditas de almofada ou edredão para as noites frias. Assim ficariam acomodados os participantes confortáveis. As velas seriam acendidas pelas crianças da catequese. Ia ser um sucesso mas não vai ser. A candidatura de Choraquelogobebes foi chumbada por causa do vento. A maldita brisa contínua de nordeste.
Mais uma vez Mata-Touros ganhou. Mais uma vez. Mais um reforço para a choradeira orgulhosa dos chorincas.
Nota do autor: Saca-à-vela é um desporto ancestral e muito popular. Consiste numa corrida de dois grupos de pessoas enfiados numa saca de serepilheira, daquelas que depois de desmanchadas servem para apanhar a azeitona. Cada saca leva um grupo de 10 ou 12 enfiados (assim se chamam os participantes) em que cada um deverá levar uma vela acesa. Acaba vitoriosa a equipa que chega em primeiro com todas as velas acesas. Trata-se de um jogo muito competitivo para o qual o vento é o pior inimigo como se percebe pela contingência da vela.