Hoje João ia às compras, eram necessárias mais sementes, duas ou três mãos cheias de bicabornato de sódio para polir os dentes, uma sachola, um par de luvas de trabalho e por ai fora, em artes de trabalho e duas ou três distracções de descanso. Esta era a lista de compras que João levava na cabeça ou num papelito arrumado no fundo do bolso das calças de peitilho.
Assim ia à vida o nosso herói, pronto para a trabalheira, quando, chegando à praça verificou que não havia lugar (nem um) disponível para encostar o carro de mão. Que aborrecimento. Logo hoje que não estava com tempo, nem com vontade de carregar aos costados com as sacas. Dizia isto com uma espécie de conformação, mas também de chateza. Havia tanta coisa melhor para fazer do que não ter onde estacionar o carro de mão.
Estava nestes pensamentos o nosso João, quase a desanimar, com vontade de deixar o carro-de-mão em contra-mão (nesta prosa se prova a importância do alinho e da mão), quando descobriu um espaço, mesmo bom, mesmo único, mesmo desejado, para estacionar a viatura. Ala que se fazem pressas e as pernas lá seguiram atrás dos rodados em direcção à solução. Quando se chegou ao sítio, já pronto para a manobra final deparou com uma placa escrita em voz alta – RESERVADO.
Não podia ser. Logo agora. Logo com esta canseira de pernas que já não queriam ir para lá ou para outro sítio qualquer. Estaria reservado para quem? Não era sítio de hospital, creche, deficiente, ministro ou outra gente importante ou necessitada ou as duas coisas. Estaria a exclusividade do lugar garantida para quem? De repente, uma voz gravada fez-se ouvir. Devia ser um sensor que detectava a proximidade e acusava o castigo. Lugar reservado. Lugar reservado. Lugar reservado. E de seguida acompanhada por uma luz vermelha, continuava a gravação. Lugar do Padre. Lugar do Padre. Lugar do Padre. Sujeito a reboque. Sujeito a reboque. E por ai fora numa sequência tipo reza da proibição.
João Sem Medo não queria acreditar no que ouvia. Já conhecia o “Lugar do morto”, “O lugar da fruta” até o “Lugar de Deus Nosso Senhor”, mas nunca ouvira falar no “Lugar do Padre”.
Amanhã ia à Junta de Freguesia reclamar. Também queria uma reserva, especial de preferência. Até já tinha um texto para a placa – Lugar do João Sem Medo Contribuinte número quatro milhões setecentos e noventa mil e dois, pessoa de bem e atrapalhado com as cargas para a horta. Assim seria ou pela necessidade de simplicidade apenas lugar de um homem de fé.
Delirante ... merecia maior divulgação
Afixado por: Lempicka em novembro 27, 2003 10:32 AM