João Sem Medo voltava tarde da horta no seu passadiço rolante. Como sabemos, em Choraquelogobebes existe um meio de transporte rápido e simpático que traz os habitantes das hortas para as sua casas.
Nessa tarde, fim de tarde para ser mais exacto, o frio tinha voltado e os habitantes regressavam embrulhados nas suas capas, sonolentos uns, pensativos outros, que isto de dormitar e pensar não é compatível nas mesmas cabeças. Vinha nesta moleza João Sem Medo, a antecipar na boca o sabor da sopa de catacuzes e tengarrinhas para se distrair do frio, quando vindo de nenhures um Chorinca decidiu fazer inversão de marcha. Pimba. Ufff. Pumba. Ai. Rebolam os Choraquelogobebences entalados entre o passadiço e os outros. Dores. Hematomas e mais dores vincaram as fungadelas. Entre os caídos estavam todos os que tinham ido contra aquele estranho personagem que tinha feito inversão de marcha, sabe-se lá porquê!? A sinalização era clara no passadiço. Uns iam para lá e os outros vinham. As coisas eram assim. Simples e ordenadas. Sem segredos. Apenas um par de setas.
Agora começavam a deixar de ser assim, fosse pelo nevoeiro, pela distracção, pela maldade ou por simples prazer de ser do contra, começavam a haver cada vez mais atropelos e problemas no passadiço. Tudo por causa de uns duendes especiais que infiltravam entre os Choraquelogobebences e com uns tacões altos debaixo das capas disfarçavam os seus tamanhos e faziam um jogo estranho de empurra em sentido contrário. Estes duendes da Floresta, andavam sempre com uma espécie de boça de camelo cheia de aguardente de medronho às costas e iam bebericando durante o dia até que já não conseguissem distinguir os caminhos e as pessoas e tudo fosse uma espécie de nevoeiro. Nesse ponto atiravam-se a todas as missões que tinham decidido cumprir em reunião de duendes.
Depois do caos instalado, carregavam nos narizes com a ponta do dedo e faziam o quatro com as pernas. Neste gesto mágico desapareciam agarrados a um balão para depois surgirem noutro passadiço em contramão e contra tudo. A solução passaria segundo o governo de Choraquelogobebes, por mandar contratar uma espécie de vigilantes nos passadiços que espiassem por baixo das capas e identificassem os duendes pela chancas de tacão ou pelas boças. Como sabem o cheiro não poderia ser usado para identificar o odor dos Duendes da Floresta da Medronheira, porque os Choraquelogobebences, apesar da dimensão, têm sempre o nariz entupido.
Perdoe o mau jeito, mas o José Gomes Ferreira não merece: no 1º parágrafo, onde está escrito "trás", deveria ler-se "traz".
A prosa é óptima, mas de vez em quando há uns "tropeços" que não estão à altura do conteúdo nem do patrono.
:)O.N.
Está um pouco futurista, não me parece que um engenho movido a energia elétrica tenha lugar na bela história do João Sem Medo. Quanto aos duendes, não fazem parte da mitologia da floresta nacional, pelo menos nas histórias que tenho ouvido contar pelos mais "velhos". A personagem mais parecida que encontro, é a do Nicolau, o pequeno homem da floresta que adorava frequentar as cozinhas das casas de aldeia, quando estas tinham a lareira acesa para preparação do jantar (escondia-se nos espaços vazios entre as pedras da parede, perto das labaredas). Zé Floresta
Afixado por: Zé Floresta em maio 12, 2004 11:26 PMLi este livro há muito tempo. Tenho pensa de não ter entendido verdadeiramente o seu conteúdo porque é muito rico.
Afixado por: Wokini em julho 31, 2004 07:55 PM