João levantou-se num ápice (não gostava de molengar na cama, às voltas a esconder o sono). Não perdeu tempo e fez todas as coisas habituais do começo do dia. Apenas perdeu um pouco mais de tempo do que habitual a escolher a roupa para ir para a horta. O nosso heroi é um bocadinho vaidoso com o vestir, mas nada que lhe tolde a determinação ao acordar.
Quando deu por si, já João passeava pela sua horta, pelos caminhos entre videiras morangueiras e pés de feijão de embarrar e rebentos de nabos (óptimos para fazer esparregado). Quando se aproximou do canteiro das cenouras verificou que estava todo amarrotado, as ramas estavam quebradas onde se esperava viço (para que os leitores compreendam melhor a importância das cenouras aconselha o autor a leitura de "Chove na horta").
Mas, continuando a escritura dos acontecimentos, via-se derramado por todo o lado pedaços de legumes e vestigios de destruição. Que teria acontecido na horta este fim de semana!? João percebeu que a destruição ainda não acabara, mesmo lá ao fundo onde começa a ceara, no cruzamento entre o caminho da direita e da esquerda, no sentido da extrema, uma doninha e um gineto degladiavam-se por causa de um Sabe-seláoquê. Fungava a doninha com o olho travesso, enquanto o gineto afiava as unhas. E entre mordidelas, unhadas e pêlo eriçado lá continuava o desafio. Que cena, que situação. Pensava que os bichos da mesma família seriam amigos - dizia João Sem Medo enquanto ia buscar uma vassoura para espantar a bicharada. Não que estes animais não tivessem direito à luta. Mas podiam ser mais discretos, ou fazerem as coisas pela calada da noite. João não perdoou tanta espontaneidade e pimba, arremessou uma valente vassourada no costado do gineto (afinal a doninha é do género feminino e mandam as regras do trato entre os animais que não se dê vassouradas nas senhoras, não porque não o mereçam, mas porque têm costados mais franzinos e resultam as vassouradas mais catastróficas).
Depois desta acção a bicharada surpreendida foi correndo pelos fundos, em direcção ao mato e enquanto desapareciam João Sem Medo ainda teve tempo para ouvir o gineto dizer para a doninha - "Isso são acusações baixas e torpes."
João não percebeu o que aquilo queria dizer, nem o que teria a ver com a disputa do Sabe-seláoquê. Hoje havia muito que reparar na horta.
João aconselha como banda sonora deste acontecimento - "La féte sauvage" ou "Apocalipse des animaux" de Vangelis.
Publicado por joão sem medo em outubro 13, 2003 12:36 PMo que fazia joão sem medo durante a noite( além é claro de ressonar), para não se ter apercebido do que acontecia na sua horta?
Afixado por: anapequenota em outubro 13, 2003 03:36 PMMinha Querida Anapequenota há coisas que não se podem confessar. Chama-se a isso segredos. Os segredos são uma espécie de lenha para a fantasia.
Mande sempre.
JSM
Afixado por: João Sem Medo em outubro 13, 2003 08:50 PM